13 setembro 2016
Profª Nara Dias

Resenha de Livro #210: Os Miseráveis - Victor Hugo

Os Miseráveis
Autor: Victor Hugo
Editora: Martin Claret
ISBN: 9788572327237
Ano: 2007
Páginas: 792
Classificação


Iniciei a leitura do volume 1 de "Os Miseráveis", do escritor francês Victor Hugo, publicado pela editora Martin Claret. O livro data 1862 e apesar de ter sido escrito em pleno século XIX, a linguagem utilizada é de fácil compreensão e a história do menino sem infância, sem amor e sem carinho, que roubou um pão para dar de comer aos seus irmãos mais novos e viveu desde então como forçado, trabalhando dia e noite por longos dezenove anos é cativante. Ao sair em condicional, o coração de Jean Valjean é puro ódio, e por causa de seu passado, é desprezado, maltratado e humilhado, ou seja, continua recebendo injustamente uma vida difícil de suportar. No entanto, ao se deparar com um ato de benevolência, praticado pelo bondoso senhor Myriel, bispo de Digne, o destino de Valjean é marcado para sempre.

"- O vento da noite é forte nos Alpes, deve estar com frio, não é, senhor?
Cada vez que ele dizia a palavra senhor, com usa voz de suave gravidade e seu modo atencioso, o rosto do homem se iluminava. Senhor, a um condenado, é um copo de água a um náugrafo da Méduse. A ignomínia tem sede de consideração. (...)
- Padre - disse Jean Valjean -, o senhor é bom, não tem desprezo por mim. Recebe-me em sua casa. Manda acender o seus castiçais. E eu não lhe escondi de onde venho, nem que sou um homem desgraçado.
O bispo, sentado perto dele, tocou de leve sua mão.
- Poderia não ter dito quem era. Estaca casa não é minha, é de Jesus Cristo. Aquela porta não pergunta a quem entra se tem nome, mas se tem alguma amargura. O senhor sofre; tem fome e sede, seja bem-vindo! (...) Além disso, antes que me digam, vocês têm um nome que eu já conhecia. (...) ...chama-se meu irmão!"
Em seguida, inicia-se a história desgraçada de Fantine, moça bela que aproveita sua juventude na companhia de amigas, porém ao se apaixonar e engravidar do fanfarrão Tholomyès, não tem oportunidade de contar, já que ele e seus amigos cansam de suas aventuras na cidade grande e retornam para suas respectivas famílias. A vida de Fantine não lhe dá opções, para tentar manter a si própria será preciso conseguir um trabalho, porém por ser mãe solteira, não é considerada uma pessoa de bem, acaba deixando sua pequena "Cotovia", linda filha chamada de Cosette aos cuidados do casal de estalajadeiros, os gananciosos Thérnadier. 

Jean Valjean torna-se o senhor Madeleine, graças a oportunidade de realizar uma boa ação, fornecendo assim uma falsa identidade. Por muito trabalhar, constrói um império que lhe dá chance de desenvolver a cidade de Montreiuil-sur-Mer, e ajudar todos que lhe batem à porta, posteriormente lhe dando às honras de ser o prefeito. O destino de Fantine, que acaba por conseguir um trabalho na fábrica de vitrilhos de Pai Madeleine, vai de degradando, de bela, torna-se velha, doente, vende os próprios dentes para conseguir pagar os gastos, que os Thérnadier alegam ter com a miserável e maltratada Cosette.
"Fantine jogou seu espelho pela janela. Havia muito saíra de seus quarro, no segundo andar, para ocupar um cubículo fechado por um ferrolho, um desses sótãos cujo teto faz ângulo com o assoalho, e onde a cada instante se machuca a cabeça. (...) Fantine já não tinha cama. restava-lhe um farrapo a que chamava de cobertor, um colchão no chão e uma cadeira sem assento. (...) No ponto a que chegamos deste doloroso drama, nada restou a Fantine daquilo que havia sido. tornou-se mármore ao converter-se em lama. Quem a toma sente frio. (...) é a figura severa da desonra."
Outro personagem que segue de perto a vida de Jean Valjean é o inspetor senhor Javert, que em sua sede de ver a justiça sendo seguida à risca, acaba por se tornar uma criatura injusta e desumana, incapaz de sentir, de nutrir misericórdia. Ao desconfiar da verdadeira identidade do senhor Madeleine, segue em sua perseguição. Enquanto Jean Valjean tenta escapar de Javert, parte em busca de Cosette, conforme prometera para Fantine.
"Certas naturezas não podem amar de um lado sem odiar de outro. A mãe Thénardier amava apaixonadamente suas filhas, o que fez com que detestasse a estranha. É triste pensar que o amor de mãe pode ter aspectos abjetos. O lugar que Cosette ocupava em sua casa, por menor que fosse, parecia-lhe algo tomado dos seus, como se a menina diminuísse o ar que suas filhas respiravam. (...) Cosette não fazia nenhum movimento que não levasse a desabar sobre ela uma saraivada de castigos violentos e imerecidos."
Esse primeiro volume é extenso, está dividida em três partes: Fantine, Cosette e Marius. Destaco ainda que ler a história do jovem Marius e o modo como ela se entrelaça à vida de Valjean e Cosette é muito interessante. Não vou me reter em contar mais detalhes da história, nem de seus demais personagens: Falchelevent, Pontmercy, Gillenormand. Por ter quase 800 páginas, a mobilidade para essa leitura fica realmente restrita, essa edição não possui uma capa atraente, já vi edições melhores.
"Marius tinha sempre dois costumes completos: um mais velho, "para uso diário", e outro novo, para as ocasiões especiais. Os dois eram pretos. Tinha só três camisas: uma no corpo, outra na gaveta e a terceira na lavadeira. Eram renovadas à medida que se estragavam. Habitualmente se rasgavam, o que o obrigava a abotoar o casaco até o pescoço. (...) Suportou tudo em matéria de privação; fez de tudo, menos contrair dívidas. Podia afirmar que jamais ficara devendo um soldo a ninguém. Para ele, uma dívida era o começo de uma escravidão. Dizia até que um credor é pior que um amo, porque um amo apodera-se apenas de sua pessoa, mas um credor apodera-se de sua dignidade e pode esbofeteá-la. Preferia não comer a pedir emprestado."
Sou favorável à leitura dos clássicos, porém antes disso, é preciso ter uma bagagem literária, para que seja possível aproveitar a obra, com todas as suas características. Essa obra por exemplo, me deixou apaixonada pelo enredo, porém admito que ela é entremeada por extensas descrições não só de locais, costumes, questões políticas, religiosas e até mesmo a guerra de Waterloo, tudo tem relação com a história, mas realmente são descrições cansativas, até para mim que gosto de obras-primas. Apenas por esse motivo, talvez uma adaptação literária ou quem sabe, até mesmo cinematográfica seja o mais recomendável para ficar por dentro dessa belíssima história.

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